Série Anatomia: o que tem dentro de um hidratante convencional?




Texto: Karen Faccin Ilustração\Anatomia: Marília Senott


Com a baixa das temperaturas também ficamos mais expostas a uma enxurrada de propagandas sugerindo “usar e abusar” dos hidratantes para prevenir os danos causados pelo clima seco, o excesso de banhos quentes e a redução da ingestão de líquidos. Mas o que dificilmente a publicidade destaca é a quantidade de ingredientes suspeitos contidos nas formulações dos hidratantes convencionais: petrolatos, parafinum liquidum, parabenos, parfum e alguns tipos de silicones são só alguns deles.


Por ser de uso contínuo, a loção corporal é um dos primeiros itens que sugerimos ser substituído na transição pela beleza consciente - Marcela Rodrigues, fundadora de A Naturalíssima.


Anatomia de uma loção hidratante convencional

Conheça a anatomia de um hidratante convencional, fique por dentro dos ingredientes suspeitos mais populares presentes nas fórmulas, entenda a função de cada um deles e seus impactos tantos na saúde humana quanto no meio ambiente. E vale lembrar que ingredientes cosméticos não são vilões. Na beleza limpa tudo "depende". Mas


Paraffinum Liquidum (petrolato, paraffin wax, liquid paraffin, petrolatum, mineral oil)

Trata-se de um óleo altamente refinado derivado do petróleo, substância largamente utilizada na indústria cosmética e farmacêutica por ser um ingrediente extremamente barato e versátil. Atua nas fórmulas dos hidratantes como emoliente, formando uma película sintética retentora de água na pele. E a verdade é que parafina e óleo mineral são os mais usados em loções corporais de fórmulas convencionais e de qualidade questionável. Estudos têm apontado que petrolatos podem aumentar o risco de doenças e dermatites - uma das evidências é a contaminação do petróleo por hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), considerados pelo National Toxicology Program um grupo de substâncias suspeitas de serem carcinogênicas. Por outro lado, outros artigos concluem que o risco diretos aos consumidores é baixo devido à falta de exposição sistêmica (não é absorvido). Mas a extração por si só já traz grandes impactos ao meio ambiente, além de ser uma fonte não renovável. E não é biodegradável. Outros nomes nos rótulos: PARAFFIN WAX • LIQUID PARAFFIN • PETROLATUM • MINERAL OIL • RED PETROLATUM • C10-11 ISOPARAFFIN • C13-14 ISOPARAFFIN • C13-16 ISOPARAFFIN • C15-35 ISOPARAFFIN CHLORINATED PARAFFIN • BETA-METHYL-CYCLODODECANEETHANOL • DODECANE • DODECANEDIOIC ACID • ETHYLENE DODECANEDIOATE • ISODODECANE • METHOXYCYCLODODECANE • TETRAMETHYL-5-OXATRICYCLODODECANE (Veja mais em limpp.com.vc)



Parfum (fragrance ou eau de toilette)

É uma combinação de substâncias utilizadas para aromatização dos cosméticos. É considerado suspeita pois não é possível classificá-la, já que sua composição é protegida pela Lei de Patente e Lei de Segredo Industrial. Logo, o risco está justamente em não termos acesso. Neste caso, vale sempre dialogar com a marca. Outros nomes nos rótulos: FRAGRANCE•PARFUM • EAU DE TOILETTE


Dimethicone (dimeticonum, silicone)

Existem muitos tipos de silicones, entre mais pesados e leves, a Dimethicone é um tipo bem comum que fica num meio termo: apesar do risco leve para a saúde humana (associada a possíveis irritações) ao meio ambiente tem impacto nocivo: quando liberada em água através de resíduos, a substância hidrolisa lentamente e não é facilmente biodegradável.

Sua função - emoliente e protetora da pele - pode ser facilmente substituídas por outras substâncias liberadas. Então, precisamos ficar atentos à proporção usada.

Outros nomes nos rótulos: OCTAMETHYLTRISILOXANE DIMETICONA • POLYSILANE• SILICONE • 401N • DIMETHY (TRIMETHYLSILYLOXY)SILANE SILOXANES • DECAMETHYLTETRASILOXANE DODECAMETHYLPENTASILOXANE • TETRADECAMETHYLHEXASILOXANE •


Parabenos (Grupo 2)

É um tipo de conservante (inibe o desenvolvimento de microrganismos) que está em 75% dos cosméticos. O motivo? É barato! Existem vários tipos e todos são barrados em formulações naturais\orgânicas\clean. No entanto, nem todos os parabenos tem riscos graves. O mais suspeito é o grupo 2, que além de atuar como um disrruptor endócrino, é tóxico para a vida aquática com efeitos duradouros. Outros nomes nos rótulos: Parabenos grupo 2\\ • Isobutylparaben • Sodium Isobutylparaben • Pentylparaben • Phenylparaben • Benzylparaben


BHT (Butylated Hydroxytoluene)

É um antioxidante sintético que também atua como conservante e, por isso, está sendo bastante utilizado como substituto dos parabenos. Apesar de ter baixa absorção e não ser considerado carcinogênico, pode ser irritante. Já ao meio ambiente, segundo levantamente da plataforma limpp.com.vc, seus resíduos são tóxicos para a vida aquática com efeitos de longa duração visto que a bioconcentração em organismos aquáticos é alta. Outros nomes nos rótulos: BUTYLATED HYDROXYTOLUENE • BUTYLHYDROXYTOLUENE • DI TERT BUTYL METHYLPHENOL • DI-TERT-BUTYL-METHYLPHENOL • DIBUNOL • HYDROXYTOLUENE, BUTYLATED • IONOL • IONOL (BHT)


EDTA Apesar de ter um potencial irritante, o EDTA é seguro para a saúde humana e ao meio ambiente segundo limpp.com.vc (tendo classificação laranja e amarela, respectivamente). A questão que o coloca na berlinda é que o O EDTA também aumenta a permeabilidade na pele, fazendo com que outros ingredientes sejam penetrados mais facilmente se utilizados com ele. Ou seja, em uma fórmula clean, ele pode realmente ser inofensivo. Já nas convencionais que usam muitos ingredientes já considerados tóxicos em sua composição, nem tanto. Outros nomes nos rótulos: BUTYLATED HYDROXYTOLUENE • BUTYLHYDROXYTOLUENE • DI TERT BUTYL METHYLPHENOL • DI-TERT-BUTYL-METHYLPHENOL • DIBUNOL • HYDROXYTOLUENE, BUTYLATED • IONOL • IONOL (BHT)


Glycerin (glycerol, glicerina)

Nem todo ingrediente comum nos hidratantes é nociva. A glicerina, por exemplo, é amplamente usada, pois é uma substância de origem vegetal (ou anima - e aí está um possível problema)l largamente usada na indústria cosmética como diluidor de outros ingredientes com a função de reter a umidade da composição. Seu efeito na pele é de condicionar e proteger. A glicerina é utilizada em cosméticos em sua forma refinada, que é segura para a saúde, contudo, em seu estado bruto, pode gerar resíduo prejudicial ao meio ambiente. Logo, acende o alerta de que o impacto desse tipo de ingrediente também vai depender do processo de sua origem.



Notas editoriais:

* Com informações de: limpp.com.vc, Evironmental Working Group, FDA 2019, National Toxicology Program

*A série "Anatomia" é publicada originalmente no Instagram @anaturalissima e tem como objetivo chamar atenção para a leitura de rótulos para provocar a auto-responsabilidade diante dos impactos da indústria da beleza na saúde humana e no meio ambiente. É um conteúdo independente;

* Busque no campo de pesquisa aqui no site por outros guias, como os posts "Anatomia de um anti-transpirante" e "Anatomia de um filtro solar convencional".