Waterless: a ascensão da beleza sem água




(Imagem: A Naturalíssima)


Alguns artigos mundo afora tem apontado que o conceito de 'beleza sem água' começou originalmente na Coreia do Sul, ganhando força pelo mundo em 2015. Mas produtos em barra não são novidade para quem acompanha a cosmética natural desde quando as categorias “natural” e “artesanal” eram as mais conhecidas e as principais possibilidades para um consumo de beleza com menos impacto. Das marcas consagradas e pioneiras às pequenas e locais, a maioria tinha suas versões sólidas para shampoos, sabonetes e até desodorantes. E isso faz pelo menos uma década.


O tempo passou e, hoje, os cosméticos sólidos fazem parte de uma das tendências mais fortes do clean beauty. Com o nome de Waterless, em tradução livre, beleza sem água, tem impulsionado a criação de maquiagens, bálsamos e até condicionadores sólidos.

Água x cosméticos: e tem problema nisso?!


A água é um dos ingredientes mais comuns nas formulações e, quase sempre, aparece logo no começo da lista. “A água tem a função de solvente nas formulações cosméticas, dissolvendo/solubilizando/diluindo os demais ingredientes”, explica a Lucimara Comunello, PHD em Ciências Farmacêuticas.


Segundo ela, é no ambiente aquoso que se tem as características ideais para o crescimento de bactérias e fungos. Por isso, em formulações com maior quantidade de água, um sistema conservante efetivo é tão necessário.


Na limpp, plataforma brasileira de tradução científica sobre substâncias nos cosméticos, a água (acqua\water) ) é sinalizada na cor verde (segura) da saúde humana ao meio ambiente. Então, qual seria problema? A resposta passa pelos vários impactos do desenvolvimento de um cosmético.




A começar pelos conservantes. A água não está sempre no começo da lista da composição à toa. É amplamente usava porque, além de fato segura, é barata. Logo, é usada para preencher uma boa parte da fórmula.


“Produtos sem água (que tem como principal diluente os óleos e manteigas) têm menos propensão ao crescimento desses microorganismos”, conclui Lucimara.

Uma das maiores críticas da beleza limpa às fórmulas convencionais (além de todo o impacto na cadeia produtiva, claro) é o uso de substâncias que afetam tanto a saúde humana quanto o meio ambiente. E os conversantes, como os parabenos (grupo 2), é um dos mais suspeitos. Além de ser um possível disruptor endócrino pode afetar a vida reprodutiva. No meio ambiente, o risco é de ser nocivo à vida marinha com efeitos duradouros. Porque é tão usado: é eficaz e barato.


"Produtos sem água são mais estáveis quanto à sua formulação; seja um serum oleoso ou um condicionador sólido", destaca a dermatologista Patricia Silveira.

As marcas limpas nacionais, quase sempre, pagam, literalmente, o preço por irem na contramão, usando conservantes liberados e até mesmo aloe vera no lugar da água que, na verdade, está longe de ser vilã.


Opinião: cosméticos com água e meio ambiente


Algumas análises tem ainda relacionado que adicionar água aos produtos também pode ser prejudicial ao meio ambiente, como levanta a Vogue\UK. O que vejo como uma acusação um pouco superficial na minha, já que o que eles alegam (o uso de plásticos e demais embalagens) pode sim ser reduzido de muitas formas. Temos muitos exemplos de marcas naturais de produtos líquidos responsáveis em reduzir o impacto de suas operações.


De fato, um produto sólido precisa de muito menos embalagem - podendo ser até mesmo entregue “pelado”, como muitas artesanais fazem e, em geral, zero plástico. Mas o problema, nós sabemos, não é ser sólido ou não, mas o impacto envolvido em toda a cadeia de fabricação de um produto.


O ascensão dos produtos sólidos no Brasil



Se as marcas artesanais abriram o caminho para os produtos em barra, as grandes labels do clean beauty fizeram com que eles caíssem nas graças do grande público. Aqui no Brasil vivemos a ascensão da USE BOB, uma das primeiras marcas a criar um portfólio exclusivamente de sólidos, como já fazia a artesanal e plastic-free Charlotte Beleza Natural. Mas vale lembrar que, antes delas, marcas como Cativa Natureza, Bioart, Ares de Mato, Natural do Barbosa e Aho Aloe já apostavam na ideia em seus portfólios.

Há pouco tempo a tradicional Lola Cosmetics, que já fazia uma transição para fórmulas mais conscientes, fez sua aposta em produtos capilares. E, recentemente, a gigante do clean beauty Simple Organic anunciou a pré-venda de sua primeira linha capilar 100% sem água.

Maquiagem sólida: sim, já temos

E nem a maquiagem fica de fora dessa. Nos Estados Unidos a Pinch of Color e a Vapor são as mais conhecidas. Aqui no Brasil, a Amokarité está abrindo os caminhos para balms multifuncionais em formatos lúdicos e cores variadas que vão das bochechas aos lábios.

Produtos sem água são mais caros?

Como sempre, a reflexão do preço na beleza natural é polêmica e complexa. Produtos mais concentrados (com ativos que substituem a água) podem ser mais caros e, soma-se a isso, o comprometimento das marcas conscientes que, independente do formato das composição, investem em insumos rastreados, orgânicos, biodinâmicos e num processo ético que, com certeza, tem um preço.

Mas, com entusiasta dos produtos limpos, sempre lembro: vale a pena pela nossa saúde, pelo planeta e para o nosso bolso, uma vez que produtos multifuncionais reduzem a necessidade de outros itens. No caso dos produtos em barra, podemos cortá-los e usa-los aos poucos.

Seja em formato sólido ou líquido, com ou sem água, com certeza a beleza com menos impacto é o futuro. Certo?!