Autocuidado não é tendência, produto ou egoísmo

Autocuidado  tem sido a pauta do ano. E não é modismo, nem tendência. Tampouco categoria de serviço ou produto de beleza. É uma urgência fruto de tempos sisudos e cheio de excessos – de informação e consumo-, e décadas de um inconsciente coletivo viciado em cultivar uma rotina ocupada, sem tempo – como se manter uma agenda lotada de obrigações fosse sinônimo de uma vida interessante – e que acredita que terceirizar a saúde mental (no spa, no cabeleireiro, no terapeuta, nos produtos…) é o caminho ideal para o bem-estar.

O termo autocuidado pode estar sendo um tanto banalizado e comercializado nos últimos tempos. E, não é à toa, tem surgidos muitos questionamentos em relação a preço, acessibilidade e privilégios.

Autocuidado é para todos?! Questionam. Mas a verdade é que nunca foi sobre comprar um estado de relaxamento ou pagar para alguém equilibrar suas emoções. Ainda é sobre autonomia, autoconhecimento e auto-gentileza.

Mas é fato que diagnosticar o que lhe faz bem num momento em que a grande indústria quer ditar o que é ou não – mesmo a palavra em si já estando diretamente ligada ao conceito de autonomia – não é tão simples. Por isso não canso de dizer que a indústria nos subestima. Enquanto isso, a informação salva. Autoconhecimento  é a bússola de consumo consciente.

Só a gente consegue identificar nossos escapes. São ações que, muitas vezes, e justamente devido a desvalorização do termo, nem são associadas ao autocuidado. Mas são, inclusive, as mais importantes.

Para algumas pessoas, um bolo no meio da tarde (ainda que não seja algo, nutricionalmente falando, saudável); para outras, uma máscara facial no domingo à tarde. Mas também pode ser dormir uma hora mais cedo, ou mais tarde. Fazer um escalda-pés na sala de casa ou investir um dia num SPA. Pode ser priorizar comprar orgânicos, se presentar com uma massagem, um filme no cinema ou uma temporada de terapia. Quem sabe um curso novo. Até saber dizer não e se afastar de pessoas tóxicas são atitudes de autocuidado.

Recentemente, a convite de um outro portal, escrevi sobre autocuidado e mencionei o Ikigai, uma filosofia japonesa que traduz o quando esse povo, talvez, seja o mais entendido de autocuidado porque, simplesmente, prioriza na rotina hábitos simples, como pequenas sutilezas, mas que impactam na longevidade saudável. Cuidar do sono, da alimentação, das relações. Até uma massagem na cabeça. Ter esse propósito de bem-viver funciona. Afinal eles vivem muito. E bem.

Mais uma vez: não tem fórmula, não tem preço.

Autocuidado e culpa

Inserir autocuidado na rotina é simples, mas não é fácil. Já faz tempo que o termo tem andado de mãos dadas com a  culpa. Motivo: Preguiça, futilidade, falta de foco e determinação são rótulos que quem desacelera e segue um ritmo fora do sistema recebem. Cuidar de si é privilégio, dizem alguns. Não é prioridade, apontam outros.

A sociedade cobra saúde mental, felicidade, calma e um espírito zen na mesma proporção em que julga quem abdica de um padrão social (trabalho, status…) para, de fato, priorizar um cuidado consigo mesmo e ser dono do próprio bem-estar.

Há quem diga que é privilégio, já que que boa parte das pessoas precisa pensar em coisas básicas, está na linha de frente de causas sociais e precisa pensar nos outros. “Cuidar do outro é cuidar de mim”, dizia o trecho de uma música que escutei dia desses numa roda de dança circular. Mas cuidar de si é se fortalecer para olhar para o outro com mais clareza, empatia e gentileza.

Nesta reflexão não caberia outra analogia melhor do que a do avião em turbulência: primeiro coloque a máscara de oxigênio em você.

“A saída é para dentro”, frase que tem se tornado um hit de sabedoria popular moderna. O objetivo é escuta de si, de cultivo da intuição. E não sobre olhar apenas para o próprio umbigo se superestimando, tendo a si mesmo como o centro do universo. É cuidar de si, porque cuidando de nós mesmos de forma consciente, temos um olhar mais gentil para o coletivo. Somos melhores para nós mesmos e para o outro.

Desacelerar, observar e desfrutar

Por outro lado, calma, qualidade tão orgânica do ser-humano, tem se tornado raridade, urgência. E arrisco dizer que, para começar, existe sim uma fórmula universal, acessível e necessária como primeiro passo, inclusive, para enxergar o que é o autocuidado para si, o que o corpo e a mente pedem. Uma ferramenta para a liberdade de consumo e e que é compatível com todos os bolsos, estilos de vida, necessidades e expectativa: desacelerar

Nunca ser gestor do próprio tempo, cuidar da saúde mental e da física – sem a pressão da geração fitness – foi algo tão desejado (talvez não aceito), mas buscado sim. Sai a necessidade de estar em todos os lugares, de saber de tudo, de estar sempre ocupado e entra o apreço por uma rotina livre – sobretudo do que a industria e a sociedade ditam como o ideal.

Trago esta questão porque autocuidado está totalmente conectado com o movimento slow living. Porque quando desaceleramos, observamos a nós mesmos e o todo. Identificamos o que é nosso, e o que vem de fora. Ou seja, separamos o bem-estar essencial do dispensável.

Há até um movimento que traduz essa necessidade coletiva: JOMO (joy of missing out – prazer em ficar por fora) que é o contrário de FOMO, outro movimento que, anos atrás, vez muita gente se orgulhar de seu significado: sentir que está sempre perdendo alguma coisa, querer fazer tudo e estar presente em tudo.

Preguiça, futilidade, falta de foco e determinação são rótulos que quem desacelera e segue um ritmo fora do sistema recebem. Seguir o próprio ritmo requer coragem. Mas requer mais ainda calma e auto-observação.

Autocuidado e sustentabilidade

A autonomia sozinha pode ser um tanto nociva. Mas junto da auto-responsabilidade, faz bem para quem pratica e para o entorno. É sobre escolhas conscientes. O sua escolha de autocuidado fere o outro – socialmente, por exemplo? Repense. É nociva ao meio ambiente? Repense – e fique longe. Você contribui para padrões sociais e estéticos nocivos Às pessoas? Repense também. Ao fazer a sua escolha, você apoia corporações que são poluentes ou preconceituosas, por exemplo? Repense ainda mais.

Autocuidado não é produto. É auto-gentileza-observação. É cultivo da intuição e, sobretudo, de escolhas conscientes.

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