Você tem medo do sol? Vem refletir porque ele não é um vilão, é aliado



A função de um filtro protetor solar é das mais nobres: proteger contra os danos causados pela exposição à radiação ultravioleta (UV). Num país ensolarado o ano todo e com alta incidência de câncer de pele (80% relacionados à exposição solar), é fácil de compreender a importância de inserir a cultura do protetor solar em todas as camadas sociais.


A cultura da estética padronizadaonzeamento fruto de horas sob o sol sem proteção (+ receitas mirabolantes e perigosas para ressaltar a cor) comum na década anterior ao entendimento de que esse padrãoA dourado a todo custo poderia ser nocivo não só à estética, mas também à saúde.


A cultura da estética padronizada transformou equilíbrio em medo


Com a intenção de estimular a população na prevenção e no diagnóstico ao câncer da pele, em 2014 a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) deu início ao movimento batizado "Dezembro Laranja". Desde então, sempre no último mês do ano, a entidade realiza ações para lembrar como evitar o câncer mais comum no País. Do uso correto do FPS aos sinais que indicam o momento de procurar um especialista.


Mas é o apelo estético, como prevenção de manchas e rugas, o maior gatilho de compra e venda desse item, que ganha lançamentos cheio de novidades e evoluções sensoriais a cada verão. Há um consenso entre os dermatologistas: o FPS é melhor amigo da beleza . E a maioria não foge da indicação padrão: aplicação diária + reaplicação (a cada 3 horas). Na exposição direta ou indireta. Faça chuva ou faça sol. Sim, até em casa.


Que vaidosa se permite caminhar sob o sol sem se preocupar com manchas?


De fato, como a ciência comprova, ele é um grande preventivo de manchas e rugas - e ganha destaque até nas rotinas minimalistas e conscientes, já que evitaria, assim, o uso de outros produtos e tratamentos


Mas num contexto ocidental de padrões estéticos que cobram perfeição e juventude, o que seria uma prevenção consciente (a fim até mesmo de se chegar a necessidade de outros produtos), tornou-se uma dependência.


Talvez, agora, seja o momento de aprofundarmos outra reflexão urgente: o resgate da nossa relação com o sol.

E os motivos são muitos. A reintegração com a natureza que nos cerca, mas também o uso consciente de uma fonte de vitaminas, equilíbrio, prana e prazer, além de um cuidado que possa ser menos dependente do consumo\cosmético.


E vale lembrar que, se nas duas últimas décadas a urgência era conscientizar a população do uso desse item, nos últimos anos passamos a ter uma reflexão quase que na contramão: os impactos de alguns filtros convencionais, como a benzophenona-3, da saúde humana e no meio ambiente, como já falamos aqui (no artigo sobre substâncias suspeitas) e aqui (sobre proteção consciente).



Sol: "cosmético" e "remédio" zero lixo, sustentável e vegano


Vivemos hoje uma epidemia de deficiência de vitamina D. Além de fontes via alimentos, como peixes e carnes, além da possibilidade de suplementação, há uma ainda mais democrática e zero lixo: o sol.


"Alguns estudos in vitro e em ratos tem demonstrado que a vitamina D pode ter uma ação fotoprotetora, contribuindo para diminuir os danos ao DNA celular e o eritema após a exposição solar, mas esse mecanismo ainda não é muito conhecido", diz a dermatologista Marcela Meissner.


Em todo caso, há muitos outros benefícios comprovados: "diminuição da incidência de cânceres, psoríase, vitiligo, dermatite, acne, doenças autoimunes e queda de cabelos; maior força muscular; ossos mais fortes; melhor cicatrização da pele; dentes mais fortes e saudáveis; menor presença de bactérias como o Propinobacterium acnes envolvidos nos casos de acne; menor incidência de doenças neurológicas e depressão", pontua a médica.


Medo não, respeito e equilíbrio sim





"Uma exposição de todo corpo por 15-20 minutos (gera uma leve vermelhidão da pele) pode induzir a produção de até 10.000UI de vitamina D, mas claro que isso depende da cor da pele, da altitude, do índice de radiação ultravioleta", afirma a médica, que lembra:

"O sol no início da manhã é adequado para o bronzeamento mais saudável da pele, mas não gera vitamina D. Os horários de 10-15h são os melhores para a produção da nossa queridinha e necessária vitamina D", afirma a dermatologista Marcela Meissner


Ou seja, para fazer essas pazes com o sol talvez seja necessário desapegar do pavor por questões estéticas que são praticamente inevitáveis para quem vive em regiões ensolaradas.



Sol & beleza


De fato, há o consenso de que o exagero de sol é um gatilho para o envelhecimento precoce. Mas há um outro a olhar a ser destacado. Cosmetóloga conhecida por recomendar altas doses de banho de sol para suas clientes - muitas delas famosas, como Xuxa e Isabela Fiorentino - Roseli Siqueira foi uma das primeiras profissionais de estética do Brasil a levantar possíveis malefícios do uso exagerado dos protetores. Segundo ela, esse pavor do sol, e o uso exagerado e diário de protetores associado à aplicação de ácidos para rejuvenescimento e manchas, deixam a pele menos resistente.


"Uma pele saudável, hidratada e nutrida, quando pega sol, não mancha, pelo contrário, fica ainda mais resistente e brilhante. Também há estimulo de colágeno", diz Roseli.


A dermatologista Vanessa Ottoboni costuma prescrever doses adequadas e controladas de sol no tratamento de psoríase, dermatite atópica, vitiligo e queratose pilar. "O importante é o equilíbrio para evitar queimaduras", alerta.


E para além estética, o sol também é fonte de beleza - não esta dos padrões, mas a que vem de vitalidade.


"O sol estimula a liberação de serotonina, um neurotransmissor de bem-estar e alegria. Além disso, é um centro energético", completa Vanessa, que também é praticante de kundalini yoga.



Um relato pessoal: eu, o sol, a beleza e sustentabilidade



(foto: Marcela Rodrigues\Arquivo pessoal)


Faz doze anos que escrevo sobre beleza e bem-estar, e menos de dez que pesquiso os multi impactos dessa indústria. Isso quer dizer que, se hoje, além de usar filtros limpos, minha maior atitude consciente nesta seara é a liberdade de consumo e o distanciamento do exagero (por minha conta e risco de manchinhas e afins), nem sempre foi assim.


Eu ainda era adolescente quando comecei a usar protetor solar - talvez meu primeiro cosmético. Era um gel, a opção menos melequenta da época, que eu passava religiosamente antes de ir para o colégio - 35 minutos de sol diário no sol do meio dia dentro de um ônibus lotado. Sim, escorria. E eu reaplicava.


Mais adulta, já em São Paulo, era uma viciada em protetor solar: foram muitas as vezes que chegava no parque para correr, lembrava que não havia levado minha bisnaguinha do melhor protetor do mercado e ficava ansiosa. Cinco minutos até a padaria também pediam FPS no rosto.


O curioso é que anos nessa disciplina não me livraram de manchas pós-alergia nos braços. Nem uma pequena no rosto. Mas, claro, reconheço que fizeram parte do meu skincare minimalista durante tanto tempo e colho frutos.


A questão é que, mesmo após meu mergulho no consumo consciente e na desconstrução da minha maneira de falar sobre bem-estar, eu demorei a desapegar do FPS. Foi bem naquela época que ou eram os convencionais ou nada.


Até os primeiros surgirem no Brasil, fiz o essencial para a minha transição: usei o que tinha (no caso, os convencionais), tendo consciência dos impactos, mas da necessidade daquele item pela minha saúde. Aos poucos, fui encontrando outras alternativas para completar esta proteção e deixar de ser dependente apenas de produtos.


Consumo subversivo

Hoje, sigo na contramão da indicação (pela estética) dos dermatologistas: não uso filtro solar diariamente para trabalhar em casa\escritório. Nos dias que saio, analiso a necessidade: se um pó dá conta com o efeito de um filtro físico ou se aplico um protetor.


Mas nos momentos de exposição direta, quando há riscos de queimaduras, os protetores ganham protagonismo, sempre com o reforça: acessórios, roupas e até alimentação que deixa a pele mais resistente ao sol. Falei um pouco disso aqui neste post sobre "guia da proteção solar consciente"


Todos os anos, aqui em A Naturalíssima, publico um Dossiê dos Protetores Conscientes (aqueles de menor impacto no mercado) como parte do especial Proteção Solar Consciente - no perfil no instagram. Por lá, entre um lançamento ecológico e outro, tento sempre lembrar que a desconstrução dessa dependência de consumo precisa acompanhar a substituição. Do contrário, trocamos seis por meia dúzia com a mesma mentalidade.


Por aqui o nosso mantra para a proteção solar consciente não poderia ser outro se não: sol não é vilão, sol é vida