Guia da proteção solar consciente e sustentável

Proteção solar em um País cuja incidência de câncer de pele é altíssima é um assunto que deve ser levado a sério. Enquanto não existem fórmulas naturais certificadas de FPS por aqui, a saída é optar por uma proteção solar baseada em atitudes conscientes  – enquanto desconstruímos o medo distorcido do sol

Talvez este seja o terreno mais nebuloso dentro do universo da beleza natural no Brasil. A maioria dos filtros químicos que temos hoje no mercado, sobretudo os mais acessíveis, possuem ingredientes nocivos tanto a saúde quanto ao meio ambiente. Por outro lado, os altos índices de câncer de pele tornam qualquer discurso contra o uso de filtro solar partindo da ideia do “não use” como uma ação irresponsável.

Por aqui temos poucas fórmulas naturais disponíveis (a maioria importada), enquanto na Europa elas já estão se tornando comuns. Parece fácil: é só pedir encomendas a amigos viajantes, certo? A questão é que muitos desses produto gringos, além do alto preço, não tem uma cosmética ideal para pele da brasileira – seja pela tonalidade, seja pela textura oleosa. E quando falamos em consumo orgânico, a produção nacionais é sempre mais sustentável.

Conclusão: a proteção solar mais sustentável neste momento parte mais de escolhas conscientes, sustentada por pilares de um consumo responsável e atitudes de autocuidado, do que apenas a escolha de um único tipo de fórmula tido como o melhor.

Ingredientes tóxicos dos filtros solares químicos, como funcionam os físicos, a discussão do ‘faça você mesmo’, e até alimentação como complemento, estão neste guia da proteção solar consciente //

Os filtros químicos

As fórmulas convencionais estão na mira de pesquisas que, cada vez mais, comprovam um impacto negativo no meio ambiente e na saúde.

A benzophenona 3 ( Benzophenona 3, oxibenzona, benzophenone) é o filtro químico mais popular do mundo, tão presente em amostras coletadas em água de piscina e mares. “É o mais usado porque ele tem ampla faixa de proteção tanto pra UVA quanto UVB; é relativamente mais barato que os outros e cosmeticamente bem aceito por aqui. Se você ler oxibenzona em algum rótulo, saiba que é o mesmo composto químico”, explica a dermatologista Patricia Silveira, do Rio de Janeiro.

Pesquisas recentes feitas nos EUA já encontraram benzophenona 3 em amostras de urina e leite materno

A benzofenona está envolvida em reações alérgicas (ela não é tão estável e, por isso, é combinada a outros filtros químicos) e como disruptor hormonal. Segundo alguns estudos, pode reagir ao cloro das piscinas, tornando a água ainda mais tóxica. No meio ambiente  está relacionada diretamente no prejuízo da vitalidade dos corais e na reprodução de fitoplânctons. A imagem acima é da série #listatoxicadabeleza, uma parceria entre aNaturalissima (Marcela Rodrigues) e Derma Green (Patricia Silveira), para desmistificar os ingredientes dos cosméticos e incentivar a leitura dos rótulos. Acompanhe no Instagram.

Se usar filtros químicos é o que te deixa segura(o) neste momento, ao menos reduza o uso e opte por um número médio de proteção, com o FPS 30, já que, quanto maior o número no rótulo, maior a quantidade de filtros químicos associados para este efeito. Alternar com os físicos e abusar de atitudes saudáveis, como as que sugerimos abaixo, ajuda na transição.

Como funcionam os filtros físicos

Os filtros físicos ainda são as melhores opções às fórmulas convencionais, já que eles são compostos por minerais, como óxido de zinco e dióxido de titânio, que ficam sobre a pele barrando a luz sem serem absorvidos.

Mas é dessa combinação que vem o aspecto “fantasminha’.  E como ninguém quer efeito esbranquiçado, a indústria começou a micronizar  o dióxido de titânio para melhorar a cosmética. Realmente essa mudança reduziu o efeito esbranquiçado! Mas isso fez também com que a fórmula, até então inorgânica, começasse a ser absorvida. O perigo disso: logo, absorvidos, os ingredientes até então inofensivos começaram a ser relacionados à toxicidade (dermatites e cacinogênese).

Solução atual: as marcas passaram a não micronizar mais dióxico de titânio e a usar uma quantidade maior de óxido de zinco, que não está envolvido nas pesquisas de danos, e associar a pigmentos coloridos, como a argila (tipo kaolin é o mais usado).

Na hora da compra alguns rótulos já vem escrito “Non nano micronized”! Na dúvida, pergunte.  E vale destacar que muitas marcas estão usando fórmulas meio físicas, meio químicas. Pode ser uma opção menos nocivas às totalmente químicas. Mas cada fórmula, um caso. Conclusão: até em quando falamos de filtros físicos, que seriam as opções mais responsáveis, é importante ler o rótulos, questionar qualquer novidades dentro desse nicho.

#DIY PROTETOR SOLAR CASEIRO

Apesar de o ‘faça você mesmo’ estar no DNA do aN, nunca publicamos receitas de protetor solar por aqui. É bem verdade que nossos óleos vegetais (cenoura, urucum, semente de uva, abacate…) têm certo fator de proteção (variando de 8 a 10), mas não são o suficiente diante de um sol de alto verão.

Receitas artesanais não permitem testes para um cosmético que tem uma responsabilidade enorme em relação a nossa saúde. Mais: dentre receitas populares internet afora, muitas contém talco, um ingrediente com alto potencial alergênico.

Em contrapartida, há muitas marcas artesanais comercializando protetores físicos. Infelizmente as que não tem nenhum tipo de certificação não passam pelos testes. É um risco de consumo. E mais uma vez: no caso do protetor, a confirmação se a fórmula foi eficaz ou não pode ser somente a longo prazo. É uma opção de escolha? É. Mais que cada pessoa precisa se auto-responsabilizar por possíveis riscos.

Lendo fórmulas do seu filtro solar

Vá além exercendo a sua autonomia investigando o item que você pretende consumir. Crie o hábito de ler o rótulo, pedir a bula e até mesmo questionar a marca em questão (você pode usar o número de SAC, normalmente disponível no site da empresa, ou mesmo mensagens pelas redes sociais).  Um bom caminho para se aprofundar nessa atitude é consultar o banco de dados EWG Skin Deep Cosmetics Database criado pelo Environmental Working Group’s (EWG) – uma  organização que que se dedica a pesquisar substâncias químicas nocivas para a saúde e para o meio ambiente – que funciona como uma ótima e segura fonte de checagem de fórmulas. Existe uma área do site – bem didática para leigos, porém em inglês – onde é possível digitar o nome de uma substância e receber um verdadeiro raio-x sobre ela, da definição a uma tabela de riscos (se tem toxicidade baixa, média, alta…).

Maquiagem que protege

O pó de arroz da vovó foi o primeiro filtro físico da história. A referência a ele é para lembrar que tudo o que recobre a pele com partícula física protege. “Mas tem que ter cobertura real para conferir! Pó facial e base que conseguem cobrir bem a pele entram nessa”, indica Patricia Silveira, referindo-se a fórmulas naturais e cruelty-free. Batons e lip balm com cor, além de proteger, criam uma camada protetora nos lábios.

Dica de acabamento: protetor solar físico, que normalmente não é tão sequinho, ganha doses a mais de proteção e efeito opaco com uma camada de pó. Se na exposição solar no alto verão, caso de praia e piscina, o filtro é indispensável, no dia  a dia de quem vive em ambientes urbanos a maquiagem (sempre natural e orgânica) pode ser uma solução para reduzir o uso de protetor solar.

Alimentação: proteção via oral

fontes de carotenoides


Falar de cuidados com a pele consciente inclui necessariamente a alimentação. E, dentro desse conceito, os nutracêuticos (complemento nutricional em forma de cápsulas) tem se destacado ao lado dos cosméticos. “A proteção solar via oral se dá na redução do processo inflamatório e do stress oxidativo que a radiação UV provoca na pele e que, por vezes, só isso  já é capaz de estimular a pigmentação cutânea em casos de melasma e a vermelhidão”, explica a dermatologista Patricia Magalhães Silveira, do Rio de Janeiro.

A prática não exclui a necessidade de proteção em cremes e roupas durante a exposição direta, mas dá um reforço e tanto, já que deixa a pele mais resistente aos danos do sol.  Segundo a dermatologista Camila Meccia, de Salvador, basicamente existem três tipos de substâncias que ajudam na proteção solar e são elas que protagonizam os nutracêuticos que, recomendados por um médico, ajudam nessa missão de proteger a pele.

Carotenoides, licopeno: os que estimulam a produção de melanina de maneira uniforme e, assim, ajudam a ter um  bronzeado uniforme e deixam a pele mais resistente aos danos do sol. Polipodium leucotoma (heliocare oral é o nome comercial): reduzem as chances de queimadura solar e vermelhidão. “Estes ajudam muito as pessoas com pele sensível e que ficam vermelha com facilidade”, explica Camila.  Antioxidantes (como vitamina C e luteína): diminuem os danos solares em relação ao envelhecimento. Para fazer uso, converse com o seu dermatologista ou nutricionista.

A boa notícia é que dá para adicionar estes ativos à rotina alimentar. “Alimentos ricos em carotenoides e licopeno, como laranja, cenoura ou tomate ajudam a estimular a produção de melanina e dar um up na resistência da pele”, completa Camila. Chá verde é uma ótima opção para garantir altas doses de antioxidantes no dia a dia.  Aqui neste post, abordados a questão alimentar como fator de proteção natural pare a nossa pele. Tem até uma lista de alimentos a serem consumidos durante a temporada de maior exposição solar.

Protegidos naturalmente, podemos, aos menos, reduzir o número do fator de proteção – o que já é um grande passo para quem segue uma rotina de cuidados mais natural e sustentável.  Afinal, quanto maior o número no rótulo, maior o número de filtros químicos associados para este efeito.

Acessórios

Bonés, chapéus, óculos de sol, barracas e até roupas de mangas com tecidos tecnológicos atuam como complementos na proteção solar consciente. Reduzem o uso do filtro cosmético ou mesmo potencializam a proteção – sobretudo para crianças.

Ressignifique a sua relação com o sol


Enquanto aguardamos marcas nacionais de filtro solar, sejam químicos ou físicos, serem lançadas por aqui, que esta seja uma oportunidade de repensar a nossa relação diante da exposição solar que, desde os anos 2000, ganhou status de vilã. Passamos a cultivar um medo insano do sol – os números de câncer de pele no Brasil são de alarmar, mas também há o medo maior de rugas e manchas. A mídia, as campanhas e a indústria (e muitos profissionais de saúde seguem o fluo do que a grande indústria médica e farmacêutica impôe), passaram os últimos anos nos incentivando a evitar o sol a qualquer custo. Da praia ao escritório, muito protetor solar desde ao acordar. Resultados: passamos a consumir litros de filtro solar por ano, cheios de químicas nocivas à saúde e ao meio ambiente. E isso não é justo para o nosso bem-estar.

A exposição solar excessiva, conforme afirmam os dermatologistas, é sim um dos fatores de envelhecimento precoce. Mas o alerta é para o excesso, não para o sol, percebem? No dia a dia, doses de banhos de sol só nos fazem bem, inclusive liberam doses de hormônio do prazer. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, para produzir vitamina D de forma segura, por exemplo, deve-se tomar banho de sol por pelo menos 15 minutos por dia, sem usar protetor solar. Outro alerta é para evitar a exposição solar entre 11 e 16 horas (horário de verão).

Esse vácuo entre uma necessidade de consumo e os lançamentos de mercado nos permitem desconstruir esse medo do sol que instalou-se na nossa cultura nos últimos anos. É preciso repensar o uso abusivo e excessivo de produtos, naturais ou não, que bloqueiam totalmente essa fonte de vitamina, serotonina, vitalidade e bem-estar. Proteção solar consciente, antes de tudo, desfruta do melhor que o sol pode nos oferecer.

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