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Os rumos da perfumaria em direção à sustentabilidade. E porque é um tema tão complexo



Como em qualquer outra categoria do mercado de beleza e bem-estar, os impactos da perfumaria também passam pela cadeia produtiva e pelas escolha das embalagens. Mas é na formulação que o setor protagoniza no contexto mais questionável da indústria da beleza.


"Parfum" é uma combinação de ingredientes que formam a fragrâncias. Utilizando-se da Lei de Patente e da Lei de Segredo Industrial, alguns ingredientes não são abertos ao público ficando agrupados como Parfum.

Por isso, como mostramos aqui na série "anatomia - o que há pos trás do termo "parfum" - dificilmente conseguimos saber quais componentes existe em um perfume e, logo, quais seus reais impactos da saúde humana ao meio ambiente. Além disso, boa parte das grandes labels, até pouco tempo, estava envolvida em testes em animais.


A boa notícia é que o setor tem investido em reduzir o impacto de seus best-sellers, enquanto desenvolvem novidades mais conscientes, possibilitando uma perfumaria para além das versões naturais e terapêuticas, atendendo, assim, a diversos públicos. Confira na reportagem.


OS RUMOS DA PERFUMARIA EM DIREÇÃO À SUSTENTABILIDADE


Na imagem, as marcas Amyi, Giorgio Armani e Natura


Prestes a completar dois anos desde seu início, a pandemia da Covid-19 impactou todos os

setores de maneiras e com intensidades diferentes. Se a venda de diversos cosméticos, por

exemplo, entrou em queda livre por conta do contexto, não podemos dizer o mesmo sobre o

mercado de fragrâncias.


“As pessoas começam a repensar mais seus hábitos de consumo, buscando mais bem-estar e, ao mesmo tempo, contato com a natureza mesmo que de dentro de seus apartamentos”, explica a perfumista Angélica Flores sobre a manutenção dos números elevados de vendas de perfume e também o aumento da procura por versões naturais.


No Brasil, 4º no ranking mundial de consumo de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos e 1º em consumo de fragrância por número de cidadão, não foi diferente. Dados da ABIHPEC

mostram que, em comparação ao primeiro trimestre de 2020, a procura por itens de higiene

pessoal no mesmo período de 2021 cresceu 6% e, no caso da perfumaria, aproximadamente

11%. Em paralelo a isso, de acordo com a Nielsen, a procura por produtos de higiene e beleza

feitos com ingredientes naturais tiveram crescimento de 124% no país.


Diante do cenário, o questionamento: é mesmo possível fazer um perfume 100% natural? A resposta é sim, mas não sem gerar novas hesitações relacionados a questões ecológicas e sociais.


Perfumes são tradicionalmente feitos de álcool, essências e compostos químicos tidos como

nocivos à saúde do ser humano e do meio ambiente. Fato é que, apesar da fama, nem todo

sintético é prejudicial, mais ainda quando olhamos sob o prisma da sustentabilidade.


“Algumas plantas, além de raras ou em processo de extinção, têm processos de extração complexos e muitas vezes são provenientes de agricultura com mão-de-obra escrava”, comenta Palmira Margarida, doutora em ciências e pesquisadora especialista em perfumes.

E, quando falamos de perfumes totalmente naturais, ou seja, 100% à base de óleos essenciais e sem nenhum sintético, entra em pauta esta discussão, igualmente necessária:


“Para retirar o óleo essencial de sândalo da Índia, por exemplo, você precisa derrubar uma árvore inteira e gigantesca, que demora muitos e muitos anos para crescer”, completa ela.


É quando entram em cena os sintéticos, compostos feitos em laboratório para ter um aroma

idêntico a alguma planta, sem ter a planta de fato em sua composição. Na grande indústria, a

maior parte deles são substâncias questionáveis, como Lilial, Ftalatos, entre outros não divulgados pelas Leis de Patente e Leis de Segredo insdustrial, como explicamos aqui.


Uma das tendência no setor é a criação de fragrâncias mistas, que ficam entre as convencionais e as naturais artesanais.



Os rumos da perfumaria no Brasil: da inovação à fabricação artesanal



O debate é longo e em discussão constante pela indústria, variando muito entre os países por

fatores culturais, socioeconômicos e governamentais. No Brasil, a Anvisa não libera a venda de perfumes 100% naturais sem que eles recebam em sua composição algum tipo de

estabilizante. O que, claro, acaba por dificultar a sua presença nesta categoria artesanal crescer.


Outro fato curioso: enquanto as grandes casas de perfumaria têm suas fórmulas protegidas por lei, por aqui, perfumistas naturais que desejam vender suas produções precisam apresentar as fórmulas completas para o órgão responsável pela vigilância sanitária.


Soma-se a este cenário o perfil de consumo do brasileiro quando o assunto é perfume e o motivo de estarmos entre os maiores mercados do mundo no setor. “Apesar da antiga relação dos indígenas com as ervas em rituais de todos os tipos, no século XIX, inicia-se a disseminação da ideia de que os brasileiros precisavam se assemelhar aos europeus e, entre outros aspectos, isso significava cheirar como eles”, conta Palmira Margarida, que também cria perfumes personalizados sob encomenda.


Isso acontece no mesmo momento em que a indústria de fragrâncias sintéticas na Europa nasce, criando a necessidade de escoamento dessas produções e dando início também ao nosso perfil de consumo que perdura até hoje.


A concepção olfativa do brasileiro ainda é muito relacionada a status e higiene, com muito mais foco em fixação do que em benefícios etéreos”, complementa a especialista. E, vale dizer, a durabilidade está longe de ser o foco das composições naturais, que prezam por entregas holísticas e da pele para dentro.



Não é à toa que, por aqui, a perfumaria natural e sustentável é ainda incipiente e caminha a

passos mais vagarosos, enquanto países como França e Canadá já têm este conceito bastante disseminado. Hoje, em solo nacional, as marcas de cosméticos artesanais costumam oferecer versões de sinergias entre óleos essenciais e vegetais, formando, assim, uma versão oleosa de perfume rollon, caso da Terra Flor e Bioart.


Mais elaboradas são das perfumistas que ainda se baseiam em técnicas ancestrais e autorais, como Palmira Margarida, Mona Soares e Paula Franco, que criam sob encomenda, e de marcas como Amorosa Perfumaria, Herbaria e Jardinlis Botanic - que são só alguns exemplos entre tantos. Recentemente, até a pioneira em roupas com tingimento natural Flavia Aranha lançou sua linha de cheiros botânicos para o corpo.


Inovação: mistos & limpos


Para além do nicho artesanal, a inovação na indústria começa a despontar uma nova categoria: a das fragrâncias mistas. Elas usam óleos essenciais combinados a outras substâncias sintéticas, mas não consideradas tóxicas.


É o caso da Elemento Mineral, marca de skincare natural que lançou uma das primeiras opções mistas do mercado, anos atrás, e da linha Eau de Parfum da Pomander Sagrado.


Outro ótimo exemplo é jovem Amyi, startup criada há dois anos por duas empreendedoras brasileiras com longa experiência no setor com o foco de transformar o universo da perfumaria com inovação não só na escolha dos ingredientes (naturais e produzidos de forma vegana e sustentável), mas também na maneira - nem sempre consciente - como o brasileiro consome perfumes.


Por isso a experiência é o carro-chefe da startup: na Amyi, para escolher um novo perfume o consumidor tem a opção de experimentar os seis perfumes do portfólio em miniaturas e viver uma experiência guiada online enquanto sente cada fragrância. Ponto para embalagem de papel e tampa de madeira.



A perfumaria e a grande indústria nacional


Quando falamos de ingredientes, o álcool tem protagonizado uma mudança coletiva em um progresso que marcas nacionais têm trilhado com afinco: alternativas para a origem do álcool, um dos principais componentes de um perfume e responsável pelo papel de solvente do produto quando em contato com a pele.


A Natura utiliza álcool de cultivo sustentável e orgânico de cana verde que, entre outros benefícios, economiza água e reduz a emissão de gases que causam o tão famigerado efeito estufa. Em termos de portfólio, com Kaiak, a marca encabeça iniciativas em prol do meio ambiente – a linha mais recente, Kaiak Oceano, tem tampas feitas com plástico reciclado, sendo uma parte delas coletadas nas praias do Brasil em alguns dos mutirões organizados por eles.


O Boticário anunciou neste ano que 100% de seus itens de perfumaria passariam a ser

produzidos com o chamado eco álcool, em um esforço que reforça os benefícios citados acima.


Iniciativas da perfumaria de luxo internacional



Falando de grandes marcas e, principalmente, da perfumaria de luxo, o percurso ainda é

obscuro, por conta do sigilo das composições e das poucas opções de clean beauty. “As

grandes casas de fragrância utilizam extratos naturais na composição de seus perfumes, porém misturando com as essências sintéticas”, explica Angélica.


É o que fazem Dior e Chanel, para mencionar alguns nomes, que entregam perfumes com valores mais elevados e, para grande parte da população brasileira, praticamente inacessíveis. Falta resolver a questão dos testes em animais.


Ainda assim, boas novidades têm despontado em meio às falsas promessas de marketing que tentam enganar os consumidores com claims enganosos. A francesa Chloé, por exemplo, lançou o Eau de Parfum Naturelle, perfume vegano e com 100% de ingredientes naturais, incluindo o álcool da composição, com embalagem feita a partir de materiais reciclados, mas ainda sem previsão de chegada ao Brasil.


A Calvin Klein lançou recentemente a CK Everyone, uma vegana, formulada com 79% de ingredientes naturais, sendo alguns veganos. A garrafa de vidro transparente contém 10% de materiais reciclados pós-consumo e ainda é reciclável, enquanto a caixa dobrável contém 30% de materiais reciclados pós-consumo.


Enquanto não evoluem tanto com relação às fórmulas, algumas marcas já rumam para um

posicionamento mais sustentável. É o caso da Giorgio Armani, que apresentou recentemente a versão em refil do perfume My Way, o primeiro com esta proposta no segmento de luxo e que, ao propor uma economia de mais de 60% em produção de resíduos plásticos, é um case de neutralidade de carbono.


Outro exemplo atual é o da Kenzo, que firmou parceria com algumas perfumarias brasileiras para que, em troca das embalagens vazias, o cliente receba desconto nas compras da marca.


Em resumo, a perfumaria natural existe, sim, mas ainda longe de um consenso dos

especialistas e, especialmente no Brasil, a algumas décadas de distância de se tornar algo

super comum.


Para que isso aconteça, as pessoas precisam se reconectar e resgatar o

potencial do olfato, um dos sentidos mais importantes do corpo humano, revendo a motivação do uso e, também, estando dispostos a pagar mais pelos produtos (o que nem sempre é uma escolha).


"Quando falamos em perfumes naturais, estamos propondo um luxo consciente. Temos que saber como utilizá-los de forma sustentável e compreender a valiosidade por trás disso”, reforça Angélica Flores.

Do lado das marcas, passos cautelosos e muito bem pensados para

equilibrar os pilares de sustentabilidade, beleza limpa e entregas do portfólio. Afinal, a

indústria de perfumaria é uma das maiores do mundo e, só no primeiro trimestre de 2021,

movimentou mais de US$ 900 milhões.



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