Anatomia de um batom: ingredientes “tóxicos” à crueldade animal



Um dos símbolos de ornamentação feminina mais antigos do mundo, o batom  exerceu fascínio, protagonizou crises, lutas e, claro, simbolizou padrões estéticos dos mais curiosos desde que foi criado – em tempos imemoriais, aliás, já que pelos museus afora é possível conferir que os egípcio já pintavam os lábios de vermelho.


Entre tantas histórias interessantes e padrões curiosos que o batom protagonizou, vale lembrar que no último século ele  foi um grande símbolo da revolução feminista nos Estados Unidos. Logo, nas décadas de 40 e 50, se tornaria também marca registrada das divas de Hollywood, como Elizabeth Taylor. Prova de que o batom resistiu ao tempo.


Talvez isso explique o fato de ele figurar, atualmente, no Top 3 dos itens de beleza mais consumidos pelas mulheres, segundo pesquisas do Euromonitor. Será que você ajude a engrossar este time? Afinal, com tantas variações de cores e texturas, praticamente toda pessoa pode ter um batom em casa. Inclusive, em caso afirmativo, é bem possível que você esteja comendo batom!


Se você USA batom, você COME batom


Isso mesmo. Não se sabe hoje a medida exata, mas um estudo de 2013 divulgado pela revista Environmental Health Perspectives afirmou que uma pessoa comum ingere, em média, 24 miligramas de batom por dia, número que pode aumentar para 87 miligramas, caso a pessoa faça um uso excessivo do produto (pense em reaplicações seguidas – há quem tenha mania!. Para se ter uma ideia, uma embalagem comum de batom tem aproximadamente três gramas e meio do produto, então oito gramas de batom correspondem a mais de dois batons inteiros ingeridos por ano. A questão é que por trás do batom há muito mais do que cores.


Batom e possíveis ingredientes suspeitos


Por muitas décadas o batom era fruto de uma mistura a partir de cera de abelha e tintas vegetais. A  fórmula sólida só teve início na década de 1930, mas mesmo assim a receita básica não sofreu radicais mudanças. Hoje temos os sólidos, os líquidos, os cremosos, matte, balms… Sem falar nas incontáveis variações de cores, sobretudo de vermelhos e nudes e promessas presenciamos surgir formulações das mais elaboradas: fixação prolongada, formulas que prometem aumentar o volume, preencher linhas; efeitos e mais efeitos. 


Mesmo as fórmulas testadas dermatologicamente e liberadas pela Anvisa podem conter ingredientes considerados suspeitos – ou seja, aqueles cujas pesquisas científicas tem mostrado cada vez mais algum impacto no meio ambiente ou na saúde humana. Aliás, a suspeita de substâncias tóxicas nos batons ganhou relevâncias anos atrás, a partir de uma publicação do New York Times baseada em um artigo de pesquisa em Environmental Health Perspectives (EHP), cuja autora principal, Dra. Katharine Hammond, foi citada como tendo dito: 'Trate [batom] como algo perigoso, porque se [crianças] o comermos, estaremos falando sobre um nível comparativamente grande de metais entrando em um corpo pequeno.


Muito tempo se passou, o próprio Food and Drug Administration (FDA) endossou a suspeita, mas, à época, afirmou que diz não são níveis com que se preocupar - embora sejam mais altos do que a quantidade recomendada de chumbo em doces, que é 0,1 ppm!


Anatomia: as substâncias possivelmente nocivas dentro de um batom convencional


Contaminação por metais pesados: o chumbo é o principal deles e a avaliação do EWG tem nota 10, o máximo de classificação, sendo considerado um químico tóxico e bioacumulativo.

Segundo pesquisas, sua neurotoxicidade está ligada a problemas no sistema nervoso, além da desregulação hormonal, tanto em homens quanto em mulheres. Mas ele não é colocado diretamente nas fórmulas, chega até elas por contaminação em outros ingredientes, como óleo de semente de algodão e glicerina.


Você pode identificar nos rótulos como acetato de chumbo, cromo, timerosal, óleo de semente de algodão hidrogenado, hexametafosfato de sódio.  Falamos bastante neste post sobre a possível contaminação pro chumbo nos cosméticos na série #listatóxicadabeleza no Instagram.


Outros suspeitos: vale ressaltar que fórmulas convencionais derivados do petróleo, como óleo mineral e vaselina. Além do possível impacto na saúde humana cada vez mais sendo analisado, esses componentes são de fontes não renováveis e não são biodegradáveis. Sem falar, claro, nas fragrâncias sintéticas, responsáveis por alergias e dermatites de contato. Agora, me diz: batom precisa de perfume?


Batom e crueldade animal




Natural, mas cruel: o pigmento carmim vem do inseto conchonilla


Um dos corantes mais comuns nos batons vermelhos, o Carmim, embora natural e sem suspeita de toxicidade, é polêmico e vetado das fórmulas conscientes não à toa: para cerca de meio quilo do pigmento, cerca de  70 mil fêmeas do inseto cochonilla são mortas.


A cor vermelha vem do ácido carmínico, que compõe quase um quarto do peso das Cochonilhas e impede uma predação por outros insetos.

“Em geral, esses insetos são dissecados primeiro. O corante de cochonilha é colocado em vários filtros para remover partes de insetos” , explicou à BBC, Amy Butler Greendield, autor de “Um vermelho perfeito” (em tradução livre), uma publicação sobre a história do Carmim.  Vale, ainda, somar a este contexto o fato de que muitas marcas de maquiagem passam por testes em animais.


Outros tipos de matéria-prima de origem animal, como mel e cera de abelha, não estão na lista de suspeitos por toxicidade. As substituições são feitas, como explico abaixo, em razão de chagar a fórmulas veganas.


Batons veganos, naturais e orgânicos


Nos últimos cinco anos a indústria, influenciada por movimentos que pregam o consumo consciente, tem criado formulas de diferentes categorias: cruelty-free, livre de crueldade animal, veganos (sem matéria-prima animal, como cera de abelha, lanolina, colágeno – que, vale salientar, não são suspeitos de impactarem na saúde humana) e também provenientes de ingredientes orgânicos, cuja toda a cadeia de produção é rastreada e certificada por alguns órgãos de inspeção de cosméticos.


Entre versões 100% naturais e clean (algumas usam sintéticos liberados), Cativa Natureza, Face it Vegan, Simple Organic, Care Natural Beauty, Cativa e Bioart são exemplos de marcas que oferecem batons e provam de que não faz o menor sentido manter fórmulas que envolvem crueldade animal e ingredientes suspeitos.


(Imagem: picolé de batom\ Pinterest\By Bethany Crutchfield)

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